sábado, 24 de outubro de 2009

Pele de Asno - Resgatado das minhas memórias


Lembro do tempo em que toda a noite insistia a minha mãe para que me contasse uma história para dormir. Ah, para mim eram as melhores. O mesmo tempo que correu de lá para cá, foi apagando aos poucos cada uma daquelas surpreendentes aventuras e deixando apenas algumas poucas lembranças tanto na minha mente quanto na de minha mãe. Eu imaginava de onde ela tirava todas aquelas histórias e jurava que as inventava – e no fundo era muito do que fazia – e achava que havia um pouco de mim em todas elas.

Contos de fadas, histórias de crianças travessas, finais com lições de moral. Todas as fantasias “inventadas” por minha querida mãe - sempre meia hora antes do horário em que eu deveria dormir - permeavam meus sonhos durante a noite que se seguia.

Ontem numa súbita perda de sono, anos após a fase das “histórias de dormir”, fui ver televisão. As histórias não são tão divertidas quando as que ouvia quando criança, mas serviria. Passeando pelos canais da parabólica, eis que me deparo com uma princesa de espalhafatoso vestido azul, cantando l’amour, l’amour je t’aime vu... ou algo parecido. Era um filme francês legendado. Interessei-me de subido, mesmo sem saber o motivo. Deixei-me ficar, pois sabia ser algum clássico da literatura devido à culta programação do canal que – não adiantou o esforço – até o fim fiquei sem saber qual era.

O filme era Peau d'âne – Pele de Asno, baseado no conto de Charles Perrault, autor de Cinderella, O gato de Botas, Barba Azul, Branca de Neve, e vários outros contos infantis adotados pela Disney. Dirigido por Jacques Demy, foi lançado em 1970, com seu cenário infantil e muito simples. Achei-o belo apesar de morno e infantil, mas o que me prendeu até o fim foi a sensação de conhecer a historia.

Lembrei-me já no início da terceira parte que era uma das histórias contada por minha mãe. “Pele de Asno” repeti na mente, até que meu cérebro vasculhou seus arquivos e encontrou escondido e “empoeirado” a história que ouvi quando tinha meus cinco ou seis anos de idade. Sim, era a mesma história, porém diferente do me que lembrava. Na história da minha mãe – que eu me lembre – não havia incesto como no filme onde o rei pretende casar-se com sua filha. As mágicas eram feitas de maneira diferente também, mas o resultado eram os mesmos. Sim, aquela era uma das minhas “histórias de dormir” preferidas.

Sorri contente, como quem encontra um objeto do qual muito se gosta e que há muito tempo foi perdido entre coisas velhas. Como eu era boba! A história não muito se diferencia de qualquer outro conto de fadas. A princesa mal vestida e transformada em plebéia é salva pelo príncipe encantado que descobre no final que ela também tem sangue real. Nada mais bobo para um sábado à noite, mas valeu a lembrança!

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