
Aproximadamente três da manhã e o telefone celular tocava. Ele havia dito que ligaria, mas ela achou que estivesse brincando. Já fazia um bom tempo que deixara de ligar para ela no meio da madrugada.
Lembrava das vezes em que foi acordada por aquela voz macia e baixa dizendo que não conseguia dormir e que pensava nela. Ou quando ficava nadando até que a exaustão o vencesse antes dormir [apenas por gostar de nadar, afirma ele], e ligava para ela com a respiração ofegante para desejar [mais uma vez] boa noite, e perguntar se estava bem.
Dessa vez, porém, os motivos eram outros. Queria dizer que a amava. Tão somente amava-a pela madrugada e gostaria que ela soubesse. Demorou um pouco até que se desse conta de que o celular realmente tocava, e o atendeu sonolenta. Já sabia que era ele pois aquela musica só tocava quando ele ligava ["Garotos como eu sempre tão espertos, perto de uma mulher... São só garotos"]. A voz que ouviu não deixava dúvidas.
Tinha um tom divertido. Acordá-la para dizer que a amava como ela fez com ele não a incomodava de maneira alguma. Aliás, ela sempre gostou do timbre dele durante a madrugada. No último domingo ela tinha ligado as seis da manhã para dizer, e somente para isso, que o amava. Amava-o de madrugada como ele naquela terça.
Passava um especial sobre Vinícios de Moraes na tevê, ele lhe contara. Estava assistindo-o. Além da simples jura de amor, Dom lera alguns versos como fizera segunda a tarde. Ela fez um esforço para recordar-se o nome do autor dos versos, mas é impossível. Não recorda, mas lembra-se de que eram lindos e falavam sobre amar sem medo e conta-gotas [não necessariamente nessas palavras]. Voltou a dormir sorrindo até o momento de ir vê-lo.
Se era uma provocação acordá-la pela madrugada, saia com efeito contrário. Ela ficava feliz em saber que ele a amava [principalmente quando dito em momentos inesperados]. Aliás, amava-o a qualquer hora do dia e da noite... Em qualquer endereço ou lugar do mundo. Amava-o e gostaria que soubesse disso, assim como gostava de saber que ele sentia o mesmo [ainda que seja dito, em um determinado momento da madrugada quando lhes brindam os sonhos onde, nos dela pelo menos, ele sempre estava].

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