quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O bebê dos olhos de céu



Olhos grandes e de azul intenso a observavam assustados enquanto o choro ecoava pela vizinhança. Encoberta por uma manta velha e gasta, a criança repousava na caixa de papelão depositada perto do lixo que havia colocado na calçada, pela manhã. Olhou em volta procurando algum sinal do in/responsável por aquele anjo deixado enfrente a seu portão. Pegou-a com cuidado da caixa nos braços, e o choro cessou-se de imediato. Naquele momento não saberia dizer qual das duas se encontrava mais assustada.

Levou-a para dentro de casa e trocou a manta por uma coberta mais quente e macia. O dia estava frio. Não havia marcas na menina – agora já sabia qual o sexo do bebê – nem vestígio algum de maltrato. Abandonaram-na a sua porta e esse fato já fazia com que ela imaginasse que eram as piores pessoas do mundo. Esperava que a tivessem maltratado ou que estivesse suja e doente, mas parecia bem. E era a criança mais linda que Dulcineia já vira, precisava admitir.

Ligou para Dom e contou-lhe o ocorrido. Esperaria que ele chegasse para que a ajudasse a decidir o que fazer com ela. O choro recomeçou e a inexperiência fez com que Dulcineia se desesperasse. Estava com um bebê de, provavelmente, quatro ou cinco meses de idade e não sabia o que fazer. Ligou para a mãe e pediu auxílio. A resposta foi esperada por ela: Ou era fome, ou precisava ser trocada ou sentia algum tipo de dor.

Colocou-a nos braços, e como se fosse filha dela mesma, foi a um super-mercado para comprar algumas coisas básicas. Deparou-se com uma variedade de tipos, tamanhos e marcas para leites, mamadeiras e fraldas. Com ajuda de uma vendedora escolheu o que precisava e voltou para casa. Ter tido uma irmã mais nova, facilitou a preparação da mamadeira e colocação da fralda descartável na menina.

Foi sentada no sofá da sala de estar, dando a mamadeira para o anjo de cabelos dourados e olhos de céu, que Dom encontrou Dulcineia. Ela lhe sorriu como se aquilo fosse algo corriqueiro e percebeu a preocupação e inquietação de dele com a situação.
-Você já avisou que essa criança foi deixada aqui? Perguntou ele.
-Liguei para você e para minha mãe, que deve estar chegando, e comprei fraldas, leite e a mamadeira para esse anjinho...
-Você já ligou para a polícia, meu bem? Insistiu ele.
Dulcineia fingiu não ouvir a pergunta e olhou para a criança que havia terminado de beber o leite. Estava faminta, constatou ela. Encheu-se de ternura ao ver o sorriso estampado no rosto da menina e chamou Dom para ver.

Foi quando a mãe de Dulcineia entrou e perguntou se a criança ainda estava lá. Dom começou a conversar com ela, mas Dulcineia distraia-se com o bebê. Estava apaixonada. Apegara-se a ela em pouquíssimo tempo, e Dom não estava gostando daquilo. Disse que precisavam deixá-la na delegacia para que eles a encaminhassem para o juizado. Além disso, alguém cometeu um crime de abandono e não sabiam nada sobre aquela menina. Aquilo poderia tornar-se um problema para eles.

Dulcineia por sua vez, deslumbrada pela inocência e beleza da criança, queria protegê-la dos que a abandonaram, e da frieza dos que pertenciam ao juizado de menores. Sem contar que uma delegacia não era ambiente para um bebê. Quis que ela ficasse ao menos por uma noite. Olhava para indefesa criança e percebia que podia amá-la. Quem diria, ela que não queria um bebê? Sim, as mulheres nasceram para ser mãe, mas como disse Dom, se era assim que fizessem um filho deles dois então. Mas com a menina, não podiam ficar.

Contra a vontade de Dulcineia seguiram para a delegacia, e lá fizeram a queixa e o relato de como encontraram a criança. Dulcineia, como se fosse ela própria a mãe daquele ser, não quis deixá-la até que o juizado chegasse para levá-la. E por mais inacreditável que fosse para ela, era como se tirassem alguém muito importante de sua vida. Dom abraçou-a e explicou que aquilo era necessário. E Dulcineia sabia do absurdo que era querer ficar com a menininha encantadora, mas não conseguia evitar a ternura que ela lhe fazia sentir.

Mãe... O que é ser mãe? Será necessário gerar realmente? Poderia amá-la mesmo que não tenha saído de dentro de si, e ela sabia disso. E Dom, achava que se fosse para ter alguma criança, que fossem deles próprios. Com os traços de ambos, com os genes de cada um. E assim pensava ainda, quando Dulcineia lhe falou do sonho e da menina que nele encontrara. Melhor não falar mais disso, preferiu Dom. Essas coisas atraem...

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